Eduardo Gonçalves (Cuducos)

Eduardo "Cuducos" Gonçalves, designer gráfico e mestrando em sociologia política. Foto: Mabel Lazzarin.

Vivendo o Design: A ideia desta seção é abrir um espaço para a diversidade e a mestiçagem de opiniões existentes sobre a vida, perspectivas, opções e o desenvolvimento do design a nível profissional e acadêmico no mundo.
Nesta oportunidade temos Eduardo “Cuducos” Gonçalves (mais conhecido como Cuducos), designer gráfico e mestrando em sociologia politica, da Universidade Federal de Santa CatarinaUFSC, Florianópolis, Brasil.
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Max: Referente ao design, você se lembra de quando falou: “isto é o que eu quero fazer na minha vida” e o porquê? O que lhe atraiu? Qual foi a sua motivação?

Cuducos: Eu descobri o design a partir do meu gosto por internet, especialmente por fazer sites. Eu era bem jovem e já gostava de brincar de HTML. Eu também me envolvi com um pequeno jornal nessa época e conheci um pouco do processo de impressão, editoração e outras coisas envolvidas na produção de um impresso. Chegando o momento de entrar ao ensino superior resolvi descobrir qual o profissional que se ocupava disso. Grosso modo, foi assim que descobri a existência do design.

Max: Eduardo, segundo a sua opinião, ao quê se deve dar importância na formação de um designer em um contexto onde as mudanças são cada vez mais rápidas?

Protesto dos estudantes do Dámaso Antonio Larrañaga na Avenida Centenario

"Transeuntes ao redor do Estadio Centenario, Montevidéu". Uruguai. Por Eduardo.

Cuducos: O designer tem uma importância, na esfera produtiva, que complementa diversas outras atividades, dos mais variados ramos, de muitos outros profissionais. Se pensarmos em um produto, um carro, por exemplo: ele pode ter, como se vê muito na publicidade, um “novo design”, um “design arrojado”; mas por trás disso temos normalmente um trabalho soberbo dos profissionais de uma área mais técnica, de uma equipe de engenheiros, por exemplo. Ainda no mesmo exemplo, normalmente existe um outro trabalho gigantesco de diversos profissionais das ciências humanas: antropólogos, sociólogos, psicólogos que estudam tendências e propõem conceitos para o desenvolvimento do produto. E isso vale para a maior parte do que se produz em design. Então a importância do designer tem que estar ligada a isso, ou seja, ao o que ele tem que esses outros profissionais não têm. Um programador pode fazer sites muito avançados, um antropólogo pode compreender os valores de um dado grupo como ninguém; mas nenhum deles consegue juntar essas compreensões (vontades, desejos, necessidades) dos seres humanos e transformá-las em projetos viáveis. Ao pé da letra é claro que isso é uma grande mentira, mas é nesse ponto que consigo vislumbrar a grande importância do designer, é a única tarefa que ele faz de maneira diferenciada em relação aos outros profissionais.

Um programador pode fazer sites muito avançados, um antropólogo pode compreender os valores de um dado grupo como ninguém; mas nenhum deles consegue juntar essas compreensões (vontades, desejos, necessidades) dos seres humanos e transformá-las em projetos viáveis.

Max: Tomar o rumo das ciências sociais, em particular da sociologia foi pelo anseio de crescimento pessoal, pela procura de uma conceituação mais integral e comprometida nos seus trabalhos ou por algum outro motivo?

Cuducos: Diria que por outro motivo. Ao longo da graduação percebi que não me atraia tanto pelo design, pois não gostava tanto de criar objetos. Por outro lado percebi que me atraia por pensar na forma como as pessoas utilizavam os objetos, ou seja, como os escolhiam, como os valorizavam, como se produzia etc. Só então percebi que o meu lugar não era tanto no design, vi que eu tinha um pé nas ciências sociais – afinal, o meu foco era mais a relação das pessoas com os objetos, e não um olhar voltado para a criação desses objetos .

Max: Mas no futuro, como sociólogo, como você imagina que poderá aportar para a sociedade e os clientes? Por exemplo: um sociólogo com visão de designer, na academia ou na pesquisa, ou até na procura de um novo âmbito para o design?

BsAs #20

"Pátio da FADU/UBA". Buenos Aires, Argentina. Por Eduardo.

Cuducos: Em primeiro lugar, me vejo, no futuro, como um sociólogo – talvez como um sociólogo com uma melhor compreensão dos assuntos relacionados ao design. Em segundo lugar, meu objetivo é permanecer em atividades intrinsecamente relacionadas à pesquisa. Logo, não consigo conceber, nesses meus planos, nem clientes nem âmbitos em design. Penso em objetos e problemas de pesquisa, penso no mundo em que vivemos hoje, em como as pessoas estabelecem suas relações sociais. Isso quer dizer que devo me focar em estudar, interpretar, compreender a própria sociedade, a cultura, etc. Nisso não vejo nenhum objetivo relacionado ao design – ao menos de minha parte. Mas é claro que tenho a ambição de que esses estudos sejam lidos por designers, para que possam não só melhor conhecer a sociedade e as pessoas para quem projetam, mas, principalmente, para que possam refletir criticamente sobre a sua própria inserção nessa sociedade.

Max: Partindo da sua experiencia no desenvolvimento de interfaces gráficas, de maneira breve, qual esperas que seja o futuro das imprentas, dos livros e do uso do papel?

Nunca acreditei na “morte” do papel (…) como apontava um dos textos de um dossiê recente do periódico francês Le Courrier International, é compreender o que os leitores vão buscar em meios eletrônicos, de atualização muito dinâmica, e o que irão buscar em meios impressos.

Cuducos: Nunca acreditei na “morte” do papel. Talvez seja um lado retrógado, mas não vejo o mundo sem impressos, sem jornais, revistas e livros. O único que acredito deve mudar – como, ao meu ver, já está mudando – é a forma de produção de conteúdo para esses meios. Isso tem muito mais a ver com comunicação do que com design propriamente dito, mas a mudança de foco dos impressos demanda uma adaptação estética também. O que eu acredito que seja crucial, mais ou menos como apontava um dos textos de um dossiê recente do periódico francês Le Courrier International, é compreender o que os leitores vão buscar em meios eletrônicos, de atualização muito dinâmica, e o que irão buscar em meios impressos. A ideia que mais me cativa é que, cada vez mais, os jornais na internet vão informando os fatos de forma quase instantânea. Assim, o que resta para o jornal impresso que chega no dia seguinte, ou para a revista que só chega na próxima semana ou próximo mês? Essa é a questão a se pensar, e acho óbvio que a resposta aponta para um conteúdo diferenciado – ao meu ver, análises mais críticas, especializadas e profundas do fatos. Mas enfim, comunicação como um todo não é minha especialidade, logo, esse é só um palpite.

Max: Uma imagem em poucas palavras: Habermas; Dylan; China?

Cuducos: Habermas, Dylan e China em uma imagem? Isso só é possível na imagem de um óleo trifásico: os valores que vejo neles não têm nada em comum a não ser os três estarem no Planeta Terra.

Eduardo é autor no blog Cultura em processo, possui um blog pessoal e também um perfil no twitter.