


Tim O'Reilly
Originalmente publicado na edição de Julho-Agosto 2008 – Volume 42 – Número 4 da secção The 21st Century Writer da revista digital The Futurist. Utilizado com a autorização da “World Future Society”(www.wfs.org), graças a Jeff Cornish.
Tradução de Gonçalo Marques. Edição de Nicolás Franz e Manuel Gallo.
Como editor de uma popular série de manuais de computador, Tim O´Reilly destacou-se como o “guru da era da participação” (como o designou Steven Levy), através de um perfil publicado na revista “Wired”, em 2005, e como um “hippie grisalho” com uma certa “hostilidade em relação à publicação tradicional”, segundo o autor Andrew Keen. O´Reilly será sempre reconhecido como o homem que baptizou a Web 2.0. Aproveitámos a sua recente conferência “Ferramentas de Mudança para a Edição” (Tools of Change Conference), em Nova Iorque, para lhe perguntar sobre o futuro do livro, da escrita, da publicação e da Internet.
The Futurist: Qual é o futuro do mercado editorial?
O que a Internet fez, foi trazer-nos novos métodos de curador.
O’Reilly: O futuro do mercado editorial reside em reinventar algo que sempre assim o foi. Muita gente pensa que o negócio editorial se resume a imprimir livros em papel, folhas de papel envoltas numa capa, aqueles objectos que encontramos em livrarias. Primeiro que tudo, sempre achei que editar se trata de entender o que realmente interessa, achar a melhor maneira de obter a informação, para depois a fazer chegar aos leitores nela interessados. É como o processo de um curador. O que a Internet fez, foi trazer-nos novos métodos de gestão [curation no original]. Há um grande número de editores que se opõem a esta mudança, em vez de dizerem: “isto é algo novo, que nos ajuda a fazer melhor aquilo em que melhor fazemos”. É por isso que adoro a visão de Adrian Holovaty, o criador de um jogo de ferramentas python, que se chama “Django”. Ele fala da programação de computadores aplicada ao jornalismo, de como se pode melhorar aquilo que os jornalistas fazem com ela, de como os editores podem melhorar aquilo que fazem com as suas ferramentas. É um dos pontos chave que temos tratado nesta conferência. Não é sobre pôr palavras em papel, é sobre saber ler entre todo o “lodo” editorial. Olhem para o “Digg”, cujos autores se deram conta de como poderiam chamar a comunidade a si, ou o “Google”, que fez precisamente o mesmo. É nisso que se traduz o “Page Rank”. Eles descobriram como automatizar os processos que os editores costumavam fazer manualmente. Costumava-se contratar meia dúzia de estudantes universitários para que lessem todos aqueles manuscritos não solicitados, e encontrassem o melhor, para depois o apresentar ao mundo. Agora temos estas novas e melhores formas para encontrar este tipo de coisas. Como se constrói uma comunidade em torno disto? Como se conta uma história? Se olharmos para o caso de O’Reilly, logo reparamos que estamos no mundo do “meme”*. Estamos no mundo da comunidade. E é por isso que não publicamos apenas. Organizamos conferências, fazemos análises prévias aos riscos envolvidos, fazemos publicações online, publicamos revistas, temos eventos com milhares de pessoas. O nosso maior evento é a “Maker Fair”(Feira do Criador), que conta com 45 mil pessoas. Identificámos uma comunidade, uma tendência emergente, e demos-lhe um nome. Todos diziam: “olha o que está realmente a acontecer… Queremos formar parte disto”. É um processo editorial, apesar de o produto ser uma reinvenção da muito popular feira. É tanto um produto editorial para nós, que vem do âmago das nossas competências como editores, como um livro ou uma revista.
The Futurist: Pode-se dizer que, em muitos aspectos, mudaste o mercado editorial do século XXI…
O’Reilly: Ainda não acabámos. Há muito que aprender, ainda.
The Futurist: Acreditas que os velhos “jogadores” deste meio conseguirão continuar a ocupar posições relevantes neste mundo, muito virado para a tecnologia e para a participação? Os editores são, de certa forma, os últimos guardiões, e muito daquilo que fazes se baseia em atravessar esse tal portão que eles protegem…
O’Reilly: Não tenho tanta certeza disso. Um bom exemplo disso é a companhia Logos Bible Software. Quem pensaria, à partida, que eles estão a fazer coisas muito porreiras? Eles basicamente publicam edições electrónicas de textos religiosos muito obscuros, ou textos escolásticos usados por pessoas das àreas religiosas. Gostarias de ter o teu “Liddel” ou o “Scott Greek Lexicon” online? Fazes alguma ideia de como o fazem? Basicamente, propõem um preço à comunidade, e dentro desta, um grupo de pessoas decide, através de uma votação, se comprariam ou não o livro. Ou seja, compram-no em adiantado. Expõem assim, à maneira da Web 2.0.:”esta é a margem de preço que pagamos. Temos pessoas dispostas a pagar preço X por isto, e temos X número de pessoas dispostas a pagá-lo”. Mostram-nos quantas pessoas estarão dispostas a pagar o preço que propõem. Por norma, este feedback da comunidade diz-lhes qual o melhor preço para o livro, o que acaba por fazer acrescer a procura, e por lhes permitir pagar os custos de produção. Na realidade, estão a fazer com que a comunidade estabeleça os preços, e escolha os produtos a ser publicados. Estas iniciativas representam a vanguarda do mercado editorial, vanguarda ainda coberta por um véu de incredulidade. Creio que há muita inovação neste mercado. Voltando ao ponto inicial, alguns dos “gigantes” estão a demorar a habituar-se, mas já percorreram um longo caminho.
Por norma, o feedback da comunidade indica-lhes qual o melhor preço para o livro, fazendo assim com que acresça a procura (…) Estão a tirar proveito da comunidade (…)
Quando falámos pela primeira vez aos editores sobre entrar no campo digital, no final dos anos 80, quando começámos a tentar disseminar a ideia da publicação digital, eu trabalhava com SGML, que, por sua vez, daria lugar ao XML, o que levou ao nosso envolvimento, e posteriormente, desenvolveu-se a comercialização da Internet. Nesta altura, eles não pensavam sequer em guardar cópias electrónicas de tudo isto. Vemos o que anunciam, hoje em dia, mas fazem-no pouco, e tardiamente. Temos bons exemplos, como a Harper Collins, ou a Random House, que têm os seus repositórios digitais. É o que lhes está a permitir começar a inovar e a envolver-se, a fazer parte de todo este processo tecnológico. Tenho muita esperança. Creio que a energia e inovação impressas nesta conferência são tão importantes como em qualquer conferência minha. É o encanto deste formato, dá início a novas histórias e reúne as pessoas, funcionando como um óptimo recurso para ajudar a descobrir o melhor que acontece nas comunidades. Acho que há aqui muita curiosidade e energia positiva.
(…) Quando falámos pela primeira vez aos editores sobre entrar no campo digital, no final dos anos 80, quando começámos a tentar disseminar a ideia da publicação digital (…) eles não pensavam sequer em guardar cópias electrónicas de tudo isto. Vemos o que anunciam, hoje em dia, mas fazem-no pouco, e tardiamente (…)
The Futurist: Deves sentir-te livre de culpa por tudo o que anunciaste nos anos 80, coisas nas quais os principais editores não se quiseram envolver; agora estes presenciam aquilo que tinhas previsto há vinte anos atrás.
O’Reilly: Eu e muitos outros. E claro, o futuro dá sempre voltas inesperadas, de maneira que nunca é aquilo que esperamos. De maneira alguma me vejo como um futurista, ou como alguém que prevê o futuro. Vejo-me como alguém que vai a jogo. Vejo o desenrolar deste e “pago para ver”. Quando em 1992 disse:” Ei, existe a possibilidade de uma comercialização da Internet!”, estava a ir a jogo; às vezes temos este tipo de oportunidades, de ter um pequeno papel nestas coisas. Na verdade, até me deram dispensa da National Science Foundation para poder lançar o primeiro sítio comercial na World Wide Web, e daí partiu a avalanche. [Nota: citação real, ainda que seja uma declaração dúbia] Os nossos melhores autores estavam a criar software sobre o qual ninguém escrevia ainda, em toda a indústria computacional. Criámos aquilo a que chamamos de conferências open source. E porque estamos a dar um nome a algo, estamos a ajudar a criar o futuro, mas este foi mesmo um caso ir a jogo enquanto este ainda se desenrolava. O mesmo aconteceu com a Web 2.0.; notas um padrão, dás-lhe um nome. As pessoas dizem: “Oh, isto somos nós.” Estamos a presenciar isto neste momento, aquilo a que na revista Make chamamos de hardware open source.
Vejo-me como alguém que vai a jogo. Vejo o desenrolar deste e “pago para ver”. Quando em 1992 disse:” Ei, existe a possibilidade de uma comercialização da Internet!”.
Este tipo de coisas começa com os hackers, eventualmente vemos uma história a desdobrar-se, e tentamos contá-la de uma maneira que nos ultrapassa; a nós e aos nossos produtos, o que permite que as pessoas se juntem em torno de possibilidades do futuro. Como sabem, o futuro não acontece por si mesmo, somos nós, colectivamente, que fazemos com que se concretizem as nossas decisões, desejos e paixões. Às vezes, leva esforço, mas pode fazer-se com que uma nova ideia cristalize a partir de uma solução, acabando por se reunir as pessoas em torno desta ideia.
The Futurist: Dás a sensação de estar em ambos os lados de uma ténue linha divisória. Formaste-te em Harvard e tens um certificado da NEA (National Education Association) que te permite traduzir fábulas gregas, mas ao mesmo tempo, estás na vanguarda de uma tecnologia que, ao que muitos apontam, nos levará em direcção a uma era pós-literária.
O’Reilly: De maneira alguma olho para a situação como uma era pós-literária. As pessoas que conheço no mundo da tecnologia estão bem enraizadas no meio literário. A maioria lê muito. E mesmo os que não o fazem, envolvem-se em ideias e conteúdos históricos. Aqueles que têm uma apreciação real da História sabem do que falamos, sabem que, por várias vezes, obras consideradas canónicas actualmente, foram completamente negligenciadas durante séculos. Por exemplo, hoje olhamos para Platão como esta cintilante luz da civilização grega. No entanto, a sua obra andou perdida por mais de 300 ou 400 anos, um ou dois séculos a.C. Aí, ele e Aristóteles tornaram-se pilares das fundações da Igreja Católica e parte daquilo a que hoje se chamam os “Clássicos”; mas isto não aconteceu com muitos outros autores. As pessoas ou estão ou não estão na moda, mas a “reutilização” criativa permite que se traga de volta para o presente este tipo de coisas. Posso estar enganado, mas acho que a obra de Sappho é bem mais popular hoje do que o era no século XVIII.
The Futurist: Ajuda a tornar-se num adjectivo…
Lembro-me de uma conversa que tive com o físico Freeman Dyson, numa das nossas convenções open source, onde ele disse algo fantástico. Quando lhe perguntaram: “Que pensa do facto de estarmos a perder ou uma coisa ou outra?”, ele disse : “Temos que esquecê-lo. De outro modo, não haveria lugar para coisas novas”.
O’Reilly: Correcto, ela foi redescoberta e voltou a fazer parte da nossa cultura. Toda a questão de “baralhar e voltar a dar” em relação ao passado, é fundamental para o ser humano. Fá-lo-emos sempre. Voltaremos atrás no tempo para procurar coisas que reutilizaremos, operando normalmente uma mudança ou outra. Olhemos para a versão da Disney do “Corcunda de Notre Dame” – é uma obra trágica, não é? Eles ilegitimaram a obra por completo. Perdeu-se a essência do original. A catedral de Nôtre Dame não se refere tanto ao corcunda, mas sim à igreja, e à ideia da construção como uma forma de transmitir histórias, pois na época pré-literária, estas contavam-se através das igrejas, as pedras da sua formação estão impregnadas com história. Victor Hugo lamentava-se sobre a perda deste estilo de literatura, onde as pessoas olhavam para a construção, e sabiam bem daquilo que (esta) se tratava. Sim, algo se perdeu, mas também se ganhou muito.
A única coisa que temos a lamentar, é o facto das pessoas que tentaram manter as coisas como eram, e tentaram impedir as pessoas de se expressarem, ou de manifestarem as suas alegrias.
Lembro-me de uma conversa que tive com o físico Freeman Dyson, numa das nossas convenções open source, onde ele disse algo fantástico. Quando lhe perguntaram: “Que pensa do facto de estarmos a perder ou uma coisa ou outra?”, ele disse : “Temos que esquecê-lo. De outro modo, não haveria lugar para coisas novas”. Temos algo de muito importante a retirar daqui… Temos que aceitar as vitórias e as derrotas, o que se ganha e o que se perde. Celebrar a cultura que construímos, ao invés de nos agarrarmos àquela que tínhamos dantes. O ser humano tem capacidades. É criativo. Criará um mundo fascinante, se o deixarmos. A única coisa que temos a lamentar, é o facto das pessoas que tentaram manter as coisas como eram, e tentaram impedir as pessoas de se expressarem, ou de manifestarem as suas alegrias.
The Futurist: Achas que é neste modelo que o mercado editorial se encaixa neste momento, com capítulos a ser libertos a conta-gotas, sem permitir acesso a muito material na Internet? Crês que eles (os editores) estão a agir de uma forma trepidante, ou pensas que eles estarão já a seguir um novo rumo?
O’Reilly: Não penso que os editores estejam, de algum modo, mais agarrados ao passado do que aqueles em qualquer outro negócio que siga um modelo que (também) está ameaçado. A destruição criativa está na natureza de um sistema económico e seus incumbentes, seja a IBM, que enfrenta os computadores interpessoais, a Microsoft que enfrenta a Web, ou talvez daqui a uns anos, o Google a enfrentar o que quer que aí venha.
A destruição criativa está na natureza de um sistema económico e seus incumbentes(…)
The Futurist: O que é que vem a seguir?
O’Reilly: Estamos realmente a passar da era dos computadores para a da “computação ambiental”, onde se interage com a rede global através de dispositivos espalhados por todo o mundo, “dispositivos inteligentes”, e acho que a “next big thing” não terá nada a ver com a Internet. Acho que irá muito para além desta.
Acho que a “next big thing” não terá nada a ver com a Internet. Acho que irá muito para além desta.
The Futurist: O que achas de Nova Iorque?
O’Reilly: Adoro Nova Iorque. Tenho um amigo que mora no Upper West Side, a quem já visito há 32 anos. É como que um lar longe do lar.
*Meme – Unidade de informação que se multiplica de cérebro para cérebro (…), pode ser uma ideia ou parte de uma ideia, uma língua, um som, uma capacidade, um valor estético ou moral; algo que possa ser aprendido facilmente e transmitido enquanto unidade autónoma. (em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Meme)
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Tim O’Reilly on What is Web 2.0?
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A portrait of Tim O’Reilly
Adoro Nova Iorque. Tenho um amigo que mora no Upper West Side, a quem já visito há 32 anos. É como que um lar longe do lar.
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Volunteer translation by Gonçalo M. Marques
Gonçalo M. Marques currently attends the University of Coimbra in Portugal and will graduate in Foreign Languages (English/Spanish) next summer 2010. He plans on pursuing a master´s degree in Translation. If you want to contact him for work, please write to: goncalommarques@hotmail.com
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