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Javier Cancino Díaz

Javier Cancino Díaz

Aprofundando o tema com Javier

É com agrado que publicamos a segunda parte da entrevista com o designer gráfico e professor Javier Cancino. O interesse, de momento, são as diferentes visões sobre a subsistência futura dos livros e de seus derivados, tais como a tipografia plana e rotativa, e os canais de distribuição tradicionais, como são as livrarias. Importante, também, é justificar a oferta académica existente, numa perspectiva social e económica, para os milhares de estudantes de design que entram e se formam, tornando-se os seus conhecimentos praticamente obsoletos face às mudanças das centenas ou milhares de escolas que existem em países (com economias) emergentes ou de 1º mundo.

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Vivendo o Design: A ideia desta seção é abrir um espaço para a diversidade e a mestiçagem de opiniões existentes sobre a vida, perspectivas, opções e o desenvolvimento do design a nível profissional e acadêmico no mundo.
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Max: Javier, em relação às vertiginosas mudanças que o mundo da tecnologia vive, como vês os seus efeitos no mercado do design, no design em si, e nos clientes? Como vês a mudança dos nossos substratos tradicionais: diga-se, o papel, desde há 10 anos a esta parte; o desafio para quem está neste mercado, para as tipografias e para os mass media em papel. É necessária uma adaptação ou uma especialização? Como vês o futuro de quem se formou há, por exemplo, 3 anos? Ou crês que o processo será mais lento, de forma a acomodar-se na produção? É muita coisa, peço-te que contestes o que entenderes, no contexto.

Javier: Em Janeiro fiz uma viagem à Índia, e no regresso, estive em Zurique, na Suiça, onde uma das coisas que mais me impressionou foi a quantidade de livros que lá se publicam. A sensação que dá é que, ao mesmo tempo que mais aparelhos tecnológicos aparecem, mais livros se publicam. Passamos quase uma vida inteira à frente de um ecrã – seja o computador, a televisão, ou até mesmo os telemóveis. Neste contexto, os livros impressos acabam por ser um alivio. A nossa relação com os livros, pelo menos como o era até hoje, inicia-se quando somos crianças, com o ritual de ler ao deitar, o que acaba por criar também um maravilhoso laço entre pais e filhos. O livro leva-nos a entrar num mundo fantástico, expande a imaginação da criança e dá azo a novas ideias e formas de pensar. Roger Fawcett-Tang conta-nos que designers como Bruno Munari e Paul Rand criaram os seus próprios livros infantis. “Apesar de, aparentemente, os jogos de computador e da Playstation, ou os DVD, serem o entretém favorito dos miúdos de hoje, o fenómeno “Harry Potter” demonstrou que estes continuam a gostar muito de ler, e que são capazes de se apaixonar pela leitura como até aqui o faziam”.

“Apesar de, aparentemente, os jogos de computador e da Playstation, ou os DVD, serem o entretém favorito dos miúdos de hoje, o fenómeno “Harry Potter” demonstrou que estes continuam a gostar muito de ler, e que são capazes de se apaixonar pela leitura como até aqui o faziam”.

Embrenharmo-nos num livro é um dos maiores prazeres da vida, são parte fundamental das nossas vidas, com eles nos formamos, ilustramos e inspiramos grande parte da nossa existência. A experiência táctil é um prazer que não deve ser subestimado, explico sempre aos meus alunos que, assim que tenham criado o design de um livro, este deixa de ter as suas dimensões próprias, ganhando assim um carácter multidimensional.

É um objecto belo que nos faz crer que, um futuro sem ele, é impensável e pouco provável de acontecer. Quando a televisão apareceu dizia-se que a rádio deixaria de existir, e hoje, não sei o que faríamos, se não pudéssemos ouvir uma boa rádio, quando nos encontramos em plena hora de ponta, entre os chorrilhos de asneiras dos automobilistas. Presentemente, no meu país natal, o Chile, ainda quando há tipografias de excelente qualidade, são sempre muito caras, um factor que reprime alguns projectos. Mas a tua pergunta tem uma segunda parte, sobre o futuro dos designers formados há 3 anos; na minha aula de introdução às oficinas, que apresento nas três universidades onde dou aulas – Universidad Católica, Finis Terrae e Andrés Bello – um dos pontos que menciono, é que, no Chile, se formam milhares de designers, portanto, temos que nos esmerar, tentar ser melhores, procurar a excelência, ir até ao limite.

É uma competição selvática, hoje em dia levantas uma pedra e de lá salta um designer, mas a parte boa disto é que, dos milhares de formados, a maioria fê-lo ao abrigo do conceito das “competências laborais”, e os seus conhecimentos rapidamente se tornam obsoletos. Transformam-se em produtores, ao passo que os meus alunos se preparam para ser gente que pensa nas grandes ideias, aquelas pessoas que recordaremos e que marcarão a diferença, no futuro.

Detail of a work by Javier

Detalhe de um trabalho do Javier

Embrenharmo-nos num livro é um dos maiores prazeres da vida, são parte fundamental das nossas vidas, com eles nos formamos, ilustramos e inspiramos grande parte da nossa existência. A experiência táctil é um prazer que não deve ser subestimado, explico sempre aos meus alunos que, assim que tenham criado o design de um livro, este deixa de ter as suas dimensões próprias, ganhando assim um carácter multidimensional.

Max: voltemos a um tema anterior. Achas que os licenciados em  design saem das diferentes escolas e institutos como uma oferta distinta ao mercado, ou acaba por se implantar um gene cultural representativo do designer chileno?

Mmm…! Retomando as palavras de Tejeda, “as universidades têm grande interesse em saber exactamente a que conclusão, a que sítio vamos chegar depois de estudar design. É como se o mais importante fosse demonstrar a própria productividade”. Aqui mudo um pouco as suas palavras, e digo que é uma ordenação horrorosa que destrói a criatividade à nascença. Um sistema industrial, científico, onde a contabilidade é indispensável, e a criação um detalhe menor. As escolas estão mais preocupadas com aquilo a que chamam de “competências laborais”.

Definitivamente, estão a fazer crer aos estudantes que são uma espécie de agências de emprego, e não um sítio onde vão para adquirir conhecimentos. Para mim, o design gráfico, e provavelmente, a arquitectura, são carreiras vocacionais; e pelo menos no Chile, trabalhar nestas àreas torna-se cada vez mais difícil, e o espaço para o seu desenvolvimento, cada vez mais escasso. Portanto aqui não creio que as escolas estejam a proporcionar ao mercado diferença alguma, creio que os miúdos estão cada vez mais a seguir o seu próprio caminho, formando colectivos ou fazendo trabalhos um pouco mais alternativos, às vezes vistos como um pouco insuspeitos. Sou bastante criticado pela minha postura “de ruptura” entre os que vejo como mais anacrónicos. Muitas vezes digo que há que levar o problema ao limite, ainda que se fracasse no intuito, mas é nisso que os académicos mais jovens me apreciam, ou os que me conhecem melhor, e entretêm-se com esta aposta.

Max: Indo agora um pouco mais longe na tua visão sobre as matérias que ensinas, e o modo como com estas te relacionas; referiste-te na primeira parte da entrevista ao professor Tejeda, à importância de experimentar e ensaiar, e ao valor do conceito em si. Poderias desenvolver a tua ideia, no que à importância do conceito no design diz respeito?

Javier: Como disse no início, “ensaiar é o importante”. Com este processo, podemos observar e gerar um conceito, ou uma ideia. Um conceito é uma unidade cognitiva de significado, uma ideia abstracta ou mental que, às vezes, se define como uma “unidade de conhecimento”.

Os conceitos são construções ou imagens mentais, através das quais compreendemos as experiências que emergem da interacção com aquilo que nos rodeia, ao integrá-las em classes ou categorias relacionadas com os nossos conhecimentos prévios.

A formação do conceito está estreitamente ligada ao contexto; isto significa que todos os elementos, linguagem e cultura incluidas, e a informação apreendida pelos sentidos, que seja acessível no momento que que uma pessoa constrói o conceito de algo ou de alguém, influem na concepção. O conhecimento da experiência é sempre concreto, faz referência a uma coisa, a uma situação ou a algo que é único e irrepetível; a experiência em si, é sempre subjectiva.

A palavra “conceito” vem do latim “conceptum”, e este (termo), do verbo “concipere”, que significa “conceber”. “Concipere” deriva de “capere”, ou seja, de agarrar ou capturar algo. Conceber é unir duas (ou mais) entidades, de forma a que se crie uma terceira, distinta das anteriores.

Uma ideia (do grego ἰδέα, “de eidon”-“eu vi”) é uma imagem que existe ou que se forma na mente. A capacidade humana de contemplar ideias está associada à capacidade de raciocínio, de auto-reflexão, à criatividade e à habilidade da aquisição e aplicação do intelecto. As ideias dão lugar a conceitos, os quais são a base de qualquer tipo de conhecimento, tanto científico como filosófico. A ideia é equiparável a um conceito, pois ambas têm um significado.

Another work that demonstrate the special concern of Javier combining typography and white space -Contraforma- essential elements of a page layout.

Outro trabalho onde fica em evidencia a preocupação especial de Javier ao combinar elementos como a tipografía e as contraformas, elementos essenciaies no layout de página.

Max: No teu percurso como designer, houve alguém ou algo que influenciasse os teus trabalhos? – Escolas, designers, estilos que te tenham servido de referências, estímulos ou guias?

Javier: Sim, claro. Primeiramente, na Escola de Arquitectura e Design da Universidade Católica de Valparaíso. Encanta-me também a obra de Stefan Sagmeister, Experimental Jetset, Wearebuild, Anthony Burrill, Banksy, Marian Bantjes, David Földvári, Vince Frost, Erik Spiekermann, Pentagram, os movimentos culturais, como o Dadaísmo, o Surrealismo, os (mal designados) poetas malditos, que foram os Simbolistas, o estudo de muitos e variados tipógrafos e/ou autores de livros que tratam não só de design e tipografia, mas também do seu uso; outra referência bastante actual é a revista “IdN”, que nos põe a par de todo o tipo de formas que o design gráfico vai tomando, nas mais distintas àreas onde podemos intervir, a revista “Adbusters”… Na verdade, estou constantemente à procura, pesquisando livros e vendo novos sítios na Web de jovens designers. Devo também mencionar alguns músicos, que, de certa forma, também tiveram a sua influência no meu modo de trabalhar, tipos como o Peter Gabriel, Philip Glass, Bob Dylan, Miles Davis, Jack Johnson… e “alimento-me” também na “Fauna”, o colectivo ao qual pertenço, e nos meus alunos, que são quem mais me estimula, no exercer do ofício.

—– Fim da entrevista—–

Communicatheo recomenda:

Javier Cancino Díaz, Vivendo o Design – 1a. Parte

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Volunteer translation by Gonçalo M. Marques

Gonçalo M. Marques currently attends the University of Coimbra in Portugal and will graduate in Foreign Languages (English/Spanish) next summer 2010. He plans on pursuing a master´s degree in Translation. If you want to contact him for work, please write to: goncalommarques@hotmail.com

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